“Quando é que passará esta noite interna, o universo, / E eu a minha alma, terei o meu dia? / Quando é que despertarei de estar acordado? / Não sei. O sol brilha alto, /Impossível de fitar/ As estrelas pestanejam frio, /Impossíveis de contar./ O coração pulsa alheio, / Impossível de escutar. / Quando é que passará este drama sem teatro?, / Ou este teatro sem drma, / E recolherei a casa? / Onde? Como? Quando!” – Fernando Pessoa.
Desoculto nocturno é abordagem de várias questões: Ora surgindo desnudado à luz do grande leão dos céus, ora sob o manto diáfono da noite, festejando a princesa das trevas, em peregrinações, onde o piar dos mochos e o grito das raposas, são as únicas vozes que quebram o silêncio milenar de canadas e penedias, nas quais ritos e mistérios ancestrais, ainda vagueiam à solta - Envergando várias túnicas, desdobrando-me em múltiplas personagens - Ou é privilégio do poeta dos heterónimos, que só discorreu à mesa dum café ou acastelado em sua“aldeia”?..Sei que posso correr o risco de não ser tomado a sério: mas que fazer? . - Dizia-se de Florbela Espanca, que os poetas e os profetas “usam disfarces que os tornam semelhantes a tudo o que os cerca”- Quando criei este site, foi apenas a pensar nos chamados fenómenos do mundo paranormal: relatos pessoais, consequência da minha adolescência, em sabates noturnos?!.. Ou fruto de solitárias e longas experiências marítimas em calmos e tempestuosos mares?!.. Estas as interrogações que pretendi aqui abordar. Afinal, cedo constatei ser-me difícil passar indiferente à análise e à reflexão, ocasionalmente, de outros fenómenos e temas da actualidade
Cândido Mota: "Morreu sem sofrimento aos 82. ”Diz Noticia Mas fez-me sofrer na Rádio a pior fase da vida como assistente dele na RDP-Rádio Comercial.
O antigo locutor, actor de rádio e televisão, politico e publicista, Cândido Mota, morreu na madrugada, do 1º domingo de Maio, aos 82 anos, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado,"sem sofrimento, rodeado da família e amigos próximos", acrescentou Teresa Mota, filha do apresentador.
Paz à sua alma mas as recordações que guardo dele, deixaram-me perturbadoras feridas, que não esqueço, Mais tarde, cerca de 40 anos depois, veio com o pedido de desculpas públicas, num programa da TVI com este argumento: "Houve uma noite que perdi a cabeça completamente e não fui profissional. Peço desculpa, ao fim destes anos todos, sou obrigado a pedir desculpa, não fui profissional, não aguentei aquilo e acabei mal o programa. O João David Nunes era diretor de programas naquela altura e eu próprio me afastei”,
Não se afastou por vontade própria: foi forçado afastar-se. Por ter transformado o programa num fait divers de linha direta ao insulto e à má língua. Tendo até permitido a transmissão de um telefonema provocador à minha pessoa, a que jornal Tal & Qual, fez referência em minha defesa , onde foram descritos os pormenores.
Partiu de individuo, adulto, que se deslocou às instalações da Rádio Comercial, depois do continuo o ter deixado entrar, a perguntar -me se no final do programa podia falar com o locutor- "E, então, que pretende? - questionei:
Sua resposta: quero saber se eu o posso acompanhá-lo a sua casa e curtir com ele” - Ouvi dizer que é bicha, que gosta de homens”
Face a tão descarada desfaçatez provocatória: De imediato pedi ao funcionário da receção para o mandar sair da estação. Ficou à porta e não arredou pé: no final do programa, como eu não tinha carro, :foi atrás de mim: com esta pergunta:
“Para onde é que vai?... Para o onde é que vai?... Posso ir consigo?!...
Como não lhe passei cartão: no dia seguinte, telefonou para o programa a dizer que eu o tinha convidado a ir a minha casa e com argumentos insultuosos e aldrabões. E o Cândido Mota aceitou e alimentou o seu discurso naquele programa à semelhança do que já sucedia com outros telefonemas, muitos dos quais de acusações, difamações e provocações infundamentadas, com os quais gozava e se divertia. Para ele o que mais contava não era tanto a seriedade e a importância das questões, mas o insólito, o sensacionalismo fosse de que natureza fosse.
No dia seguinte, expus o episódio a João David Nunes, dizendo-lhe que não queria continuar a trabalhar mais naquele programa. Respondeu-me que me tranquilizasse que ele ia sair.
E foi o que sucedeu na mesma semana: o programa foi suspenso e passou a ser moderado por Teresa Cruz e Orlando Dias Agudo, a cujos profissionais continuei a prestar assistência, e com muito gosto mas também com muito trabalho, visto todas as noites, quando chegava a casa, ter de datilografar as cartas manuscritas dos ouvintes para serem depois lidas aos microfones, ao ponto do vizinho do prédio, onde ainda moro, se me vir queixar que eu o acordava com o ruido da minha velha máquina de escrever – E muitas foram essas cartas, que hoje ainda enchem um saco.
As emissões interativas, iniciavam-se à meia-noite e, durante uma hora, além da leitura da exposição lida de questões ou de pedidos, qualquer pessoa podia telefonar para o estúdio e falar do que quisesse em direto
De facto, e tal como, ainda hoje, o pode documentar o saco de cartas, que logrei salvaguardar e não rasgar "O PASSAGEIRO DA NOITE” RDP - Rádio Comercial, passou a ser a última esperança dos aflitos, miseráveis e abandonados da sorte" anos 80
Talvez fosse por esta razão, por ser um programa incómodo, que esta estação acabaria por ser privatizada em 1993, a bem-dizer dada de oferta ao Correio da Manhã, ao jornal do regime, em vez de ser devolvida a Jorge Botelho Moniz, fundador do RCP - .Enquanto a Rádio Renascença, ambas estatizadas após o 25 de Abril, é devolvida à igreja católica.
Programa radiofónico, ao qual recorreram, por telefone, por carta ou simples postal, milhares de ouvintes, expondo, denunciando abusos, implorando proteção ou apoios, desabafando as mais variadíssimas situações e problemas, desde internados nos hospitais ou nas prisões, até escritas em braile, de pessoas invisuais, ou mesmo poemas, brotados espontaneamente do fundo do coração, sim, desde os cidadãos mais desamparados e desprotegidos, a todo o tipo de problemas sociais, que procuravam os mais diversos apoios e formas de auxílios – Desde pedidos de cadeiras de rodas, moletas a empregos, apelos de justiça, um teto de abrigo, a tantas e outras situações ou episódios dramáticos de vida.
Numa das cartas, escrevia uma ouvinte estas sensibilizadoras palavras de agradecimento: .... "pelo que o programa tem feito por esse país fora e ainda bem... é de facto graças a vós que muita miséria tem sido resolvida através desse magnifico programa em que muitas as vezes me fazem as lágrimas correr pela cara abaixo no que oiço diariamente"
Também a mim, ainda hoje, ao ler algumas das centenas de cartas e postais, que pude guardar, se me toldam os olhos de lágrimas - De facto, tantas e tão sensibilizadoras eram as questões, que, ao ir-me deitar, nem sempre era fácil adormecer tranquilamente – Conservo comigo muitos desses documentos, no meu vasto arquivo sonoro e documental, que me foram confiados para passar à máquina de escrever e serem lidos e que evitei que fossem lançados ao lixo
Além disso, tive ainda a oportunidade de fazer dezenas de entrevistas nas prisões de Alcoentre, Pinheiro da Cruz e no Estabelecimento Prisional de Lisboa, e mesmo já depois das penas cumpridas, já não falando de tantas outras a figuras públicas, anónimas ou conhecidas:. desde entrevistas a Amália Rodrigues, Costa Gomes, Adelino Palama Carlos, Jorge de Melo, Cupertino de Miranda, Azeredo Perdigão, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, Jorge Amado, José Saramago, às mais diversas figuras públicas e anónimas
ELOGIOSAS REFERÊNCIAS - Não lhe faltam:
O Cândido Mota partiu na madrugada do dia da mãe, certamente para se aninhar nos braços de Maria Albertina, a mulher do fado e da voz que deu voz e sentimento a seu filho Cândido.
Partiu para o Céu das Estrelas, com lugar reservado na constelação dos eleitos, dando mais luz à luz da noite onde ele viveu tanta vida, nos palcos, na televisão e na rádio, com aquele passageiro dos outros em que sofria os males dos que procuravam no abrigo da rádio noturna o carinho e a ternura de uma voz amiga.
O Cândido, quando falava, transmitia amor – afago e amor – paixão a quem o ouvia, com aquela voz de mel, doce de abrir o peito e profunda de chegar ao coração.- Excerto de
Andou pelo Rádio Clube, pela Comercial, pelas televisões, com e sem Herman, pelos palcos, pela política da dádiva e do sonho, pela escrita e, durante uns tempos de ressurgimento, pela CNR- Cadeia Nacional de Rádios, onde também estive a seu lado sempre.
Um sempre que já pronunciava a eternidade, onde ele já chegou.
Tinha mais de oitenta, agora já curvados e gastos, mas com aquela cara – marota de bebé chorão, prestes a fazer uma traquinice.
Partiu a sorrir.
Sorrir mesmo quando não se é feliz, não é para todos.
Para o Cândido era.
E continuará a ser, no novo palco em que está agora, iluminado pelo grande projetor de luar que lhe coloca um halo de paz no seu rosto de saudade e história.
FERNANDO CORREIA
(Um homem da rádio)
Cândido Mota teve muitas e variadas aparições radiofónicas (RCP – Rádio Clube Português; RDP – Antena1 e Antena2; Rádio Comercial). Manteve-se sempre visível nos media, quer fosse na televisão, colaborando com Herman José, quer na gravação de voz off ou em spots de publicidade. Na Rádio, é actualmente (há já bons anos) voz de estação da RDS – Rádio Seixal. E é justamente na vila do Seixal que o encontro, ao vivo, todos os anos a apresentar as festividades no dia 25 de Abril.- Excertos de https://radiocritica.blogspot.com/2006/03/o-que-feito-deles.html
Luis de Raziell Vidente Vara de Deus - Erguido num dos seus altares
Paz na Terra e Acabe a Guerra - Parábola à Salvação!
Nos dias e noites em que a hora é mais incerta que segura
Em que soam trombetas de canhões às ruínas e à destruição
Agora a hora é mais de reinventar a trombeta da misericórdia
De a fazer ressoar com seus hinos de paz, amor e compaixão.
Reforçando a nossa mente e o abrigo físico da vida à luz gloriosa
Para que a desgraça seja de vez erradicada de forma firme e futura!
Que se evitem os gritos impropérios e insultuosos de trampistas
Do trono impiedoso e criminoso de déspotas raivosos e sem amor
Trazendo em cada aurora grossos sentimentos de raivosas heresias
A ignóbil tirania e vil vozaria inconsumível vertendo lágrimas e dor
Nos momentos de maior dúvida ou ansiedade, siga a sua intuição, a voz do instinto e abstraia-se do alarido externo -É a melhor sentinela da vida – Ou então abra a palma das mãos e veja o milagre que aí se esconde: sim, com um pouco de atenção, concluirá, que não há duas impressões digitais iguais nos dedos nem nas linhas das mãos.
Aqui debruço-me na qualidade de Luís de Raziell (medium) - ou só Pessoa podia ter os seus heterónimos? - mas na outra personagem pela qual sou conhecido, eu sou aquele que trabalhei numa rádio e pude conhecer e entrevistar, entre outras figuras do crime, alguns dos quais bem repugnantes. Cito o caso de um tal "Dragão" violador que tinha por hábito ir espreitar os casalinhos para o Pinhal de Monsanto e, depois, surpreendê-los sob a ameaça de um pistola, abusar de um e de outro, após o que os matava como a maior frieza e crueldade. Conheci outro caso, uma situação aparentemente menos macabra mas nem por isso impressionante: tratava-se de um individuo toxicodependente, que, para roubar um anel a uma mulher, cortou-lhe o dedo com uma navalha - Em plena baixa lisboeta. Por isso, daí já se vê que em matéria de crimes, as motivações e os tipos de crimes, são mais de que as mães que os pariram
Nos momentos de maior dúvida ou ansiedade, siga a sua intuição, a voz do instinto e abstraia-se do alarido externo -É a melhor sentinela da vida – Ou então abra a palma das mãos e veja o milagre que aí se esconde: sim, com um pouco de atenção, concluirá, que há cabelos e rostos que se assemelham, mas não há duas impressões digitais iguais nos dedos nem nas linhas das mãos – É bom aprender a olhar para o nosso interior; para o que nosdiz o instinto e amente, a descodificar alguns dos sinais do nosso corpo.– Será talvez essa uma das faculdades quedistinguirá os profetas, os videntes e os santos, dos demais.
POR MINHA PARTE NÃO DEIXAREI DE O ENVOLVER NAS MINHAS ORAÇÕES, JUNTAMENTE EM ESPÍRITO COM AS MINHAS QUERIDAS IRMÃS, AMOROSAS FILHAS DA ESTRELA DA MANHÃ, QUANDO REGRESSAR AO SOLAR DOS VENTOS UIVANTES, POR FORMA A QUE O SEU ESPÍRITO SEJA DESEMBARAÇADO DE TODA E QUALQUER PEÇONHA MALIGNA
CURIOSA ANTEVISÃO DE MIKLOS FÉHER A MARCAR NO ESTÁDIO DA LUZ - QUADRO DO PINTOR VICTOR MESQUITA - PINTADO ANTES DA MORTE DO JOGADOR - ERA O MAIOR SONHO DO ATLETA, QUE NÃO CONCRETIZOU
Tal como é recordado, "tinha apenas 24 anos quando uma paragem cardíaca se revelou fatal, em pleno campo D. Afonso Henriques, com todas as câmaras concentradas em si. Faz hoje 10 anos que Miklos Féher se despediu dos portugueses, que o acolheram desde 1998.
Faltava pouco para terminar o jogo entre o Benfica e o Guimarães, quando um o jogador húngaro se debruçou sobre os joelhos, caindo no relvado com uma paragem cardiorrespiratória.
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Já lá vão uns anos... Foi no antigo Estádio da luz e a pedido de um Benfiquista
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(imagem da Net)
Excerto do poema (carta) que não chegou a ser enviado, a Luís Filipe Vieira, pronunciando a trágica partida do malogrado Micklos Fhér
Lisboa, 21 de Janeiro de 2004
Exmo. Senhor
Luís Filipe Vieira
Presidente do SportLisboa e Benfica
Assunto: reflexão
Eis que, a oriente, irrompe a claridade.
Ressurge o rumor. O dia repete o seu giro
e a ditosa natureza parece querer de um longo torpor despertar.
Aparentemente, volve a bonança e os ventos da tempestade se acalmam.
Mas falsa ilusão: pois ainda ouço no fundo do nebuloso Vale
o dissonante troar do trovão - E, volvendo o olhar,
mais ao longe, ao largo, em direcção à erma montanha,
claramente descubro o abominável raio fulminando
os mais altos píncaros da inóspita extensão,
os turvos céus sacudindo,
ferindo de morte
o infecundo mundo!...
Sim, ó desmedida ambição humana!
Tu que és tão frágil e temporal e que, ao baixares à tumba,
ao reino dos sepulcros,
só és poeira e lama, como poderás sonhar tão alto
através de tão descampado ermo?!…
– Sabendo que o tempo de vida
que os astros vos concedem e vos resta,
é tão fugaz como efémero!...
Eu, espírito imanente, simples mortal,
incorporando o espírito do Grande Mestre,
Príncipe da Gloriosa Luz que em ridente alvorecer
se abre em esplendoroso sorriso em cada madrugada,
venho, pois, humildemente comunicar-vos,
para meu pesar, visão quão funesta, quão fatal,
conquanto não seja vosso admirador pessoal
eadepto.
Luís de Raziel.
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A TRISTE CONFIRMAÇÃO
Parecia um filme que tinha à minha frente – realizado pela força do destino: - Estava em minha casa com a televisão ligada mas sem prestar grande atenção ao jogo. Porém, estranhamente, de um momento para o outro fiquei parado frente ao ecrã com os olhos fitos no desenrolar do desafio, com o pressentimento de que algo de funesto se iria passar nos instantes seguintes - De que as imagens que a seguir se iriam desenrolar já faziam parte de um estranho caleidoscópio que havia sido programado por uma qualquer mão invisível. Sim, lembrei-me imediatamente do poema que escrevera uns dias antes e comecei logo a pressentir o que de funesto ia acontecer... Nesse momento segui atentamente o movimento da bola e vi então, a câmara apontada ao árbitro, no primeiro plano, um jogador do Benfica que se curva e, nos instantes seguintes a cair desamparado costas sobre o relvado, que já não se levantou!... Mas não o reconheci - Quem se referiu ao seu nome foi o locutor. Pouco depois, vários jogadores deitavam as mãos à cabeça, como que tomando claramente de que a tragédia, lhes batera à porta, entrara em campo e era irreversível e choravam.
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Porém, ao recordar-me daquele instante, em que o jogador cai como que desamparado e fulminado ao chão, oh, como tudo foi tão rápido e tão absurdo!... Não havia sinais de qualquer falta ouviolência em campo... Era o seu coração que, não resistindo, o traíra!.... Revejo a imagem e os momentos que se seguiram como se fosse ainda hoje. Morreu duas horas depois após fracassadas todas as tentativas dereanimação.
Três dias antes, na Quarta-feira, a meio da tarde, e sem queencontrasse alguma explicação lógica, suspendi o texto que estava a escrever no computador e pus-me a fazer uns versos sobre o Benfica. Mas porquê?!.. Se não é o meu clube?!...Estranhei a tentação mas não desisti. Mostrei-os horas depois, em minha casa, ao estudante de arquitectura, João Mendinho, ao fim dessa mesma tarde,que me havia convidado para ir jantar com ele; porém, não querendo interromper a dita inspiração, e não podendo aceitar o seu convite, acabaria por ser eu a sugeri-lhe que viesse a minha casa jantar comigo.
Pouco depois de se ter sentado no sofá (e num momento em que me preparava para os reler, já que o tema me havia absorvido bastante) mostrei-lhos! Ocultando-lhe porém odestinatário - pois não queria que nem ele nem alguém soubesse a quem se destinavam, uma vez que era minha intenção enviá-los sob pseudónimo, tal como havia feito com outro tipo de comunicação espitular - . Segurei a página (a primeira) numa das mãos, enquanto com a outra tapava o cabeçalho do endereço – Eih! foste tu que os escreveste?!... Que versos tão trágicos!.. - Exclamou. Agradeci-lhe a opinião mas não lhe disse mais nada.
O certo, porém, é que, por culpadesse jantar, acabei por não ir aos Restauradores a metê-los no correio, como era meu desejo. Depois, Quinta e Sexta-feira, envolvi-me noutras ocupações e hesitei. Mas acho que fiz bem, não estou arrependido. Pois estou convencido que teria ficado ainda mais perturbado comigo próprio, quando vi o jogador a cair de costas sobre o relvado.
Já tenho tido outras visões mas era preferível que as nãotivesse: se são boas, tudo bem; até fico contente. Contudo, quando são prenunciadoras de maus agoiros, fico triste no momento em que se confirmam. Em face disso, gostaria até que o meu cérebro me deixasse descansado e se alheasse de tais coisas–Sobretudo quando antevêacontecimentos trágicos –Mas tais percepções ultrapassam o meu querer e são inesperadas. Não se podem encomendar nem controlar. Algumas, inclusivamente, com visões que vão ocorrer a milhares de quilómetros de distância. Como foi, por exemplo, o caso do Tsunami:
Dois dias antes dessa tragédia acontecer tive um sonho horrível e acordei em sobressalto. Tinha acabado de ver milhares de corpos a boiarem em praias tropicais e ao longo de uma imensa costa bordejada por coqueiros e vegetação luxuriante, empurrados por enormíssimas vagas!... Contei o pesadelo ao Sr. Viegas, dono do café onde costumava dirigir-me pela manhã - ali para os lados do Mercado de Arróios. Hoje éum restaurante indiano – Era meu hábito ter com ele alguns desabafos desse género - Eis as minhas primeiras palavras, depois de o ter cumprimentado: “Sr. Viegas vão morrer muitas pessoas numa praia! ” – “E onde é?!...” – pergunta-me ele com ar espantado – “Muito longe daqui, esteja tranquilo”. De tarde expremi o mesmo desabafo ao António e ao Mário, no Laboratório Fotográfico, Fotozino, onde costumo fazer os meus trabalhos de fotografia. A mesma pergunta e idêntica resposta.
Bom, mas o episódio que eu aqui desejo recordar éo que se relaciona com o dos tais versos premonitório: - De facto, ao ser levado a escrevê-los, a visão queentão claramente se me colocava na mente e nos meus olhos era uma espécie de funesta tempestadeque me parecia iminente e prestes adesabar sobre a equipa do Benfica.... . Via-a como que ameaçada por um violento temporal!... Em que, um dos seus jogadores, ia ser fulminado por um relâmpago!!
E o mais curioso de tudo é que o desencadear desse cenário, com toda a sequência dramática, parecia-mesimultaneamente decorrerem dois pontos muito diferentese distanciados: sobre o estádio da luz e sobre o planalto, o vale eos montesda minha aldeia, para onde me desloco, regularmente, mas minhas habituais peregrinações espirituais
Vivo há muitos anos na capital mas nunca consegui imaginar tempestades mais medonhas do que aquelas que marcaram a minha infânciae adolescência - E, no entanto, já enfrentei temporais, sozinho, bem violentos, em pleno alto mar!
Então, ao pôr-mea escrever, como que impelido por um acto instintivo e determinado, guiado por uma qualquer voz alheia a mim,- e, para contornar, de algum modo,a imagem da morte (que erarealmente a que mais me assolava aimaginação)comecei por me servir de metáforas, que hiperbolizava, um pouco ao estilo dos poemas épicos. Dando assim escoamento a toda uma avalanche de pensamentos que me afloravam à mente, me perturbavam mas que ao mesmo tempo também me acalmavam, à medida que os ia escrevendo, como se estivesse predestinado a corporizar uma talmensagem . E até a reflectir sobre o seu conteúdo – a morte. Porém, como esta (na minha perspectiva)não é o fim de tudo ( mas a passagem para outra via, para outra jornada) o que me perturbava e perturba, não era tanto a imagem da morte masa efemeridade da vida – O tempo perdido que devíamos saber aproveitar e em que passamos distraídos.
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Julgo que o essencial da minha mensagem poética está implícito nos meus primeiros versos( nos que atrás transcrevi). Pois, nos versos imediatamente a seguir, passei a concentrar-memais na figura do Presidente do Benfica – tendo sido atémuito cáustico, como se ele fosse o culpado dessa tragédia!.. Que me desculpe (não lhe desejo mal nenhum) mas o que é que eu hei-de fazer se foram esses os meus pensamentos!... Acho que o Benfica, merecia outra pessoa. Por agora, ainda os não os transcrevo aqui; ficará para outra altura.
Nada me move contra Luís Filipe Vieira - Nem naquela circunstância nem agora. . Sou simpatizante de outro clube mas não me sinto afectado pela bola.. Vejo futebol de vez em quando na televisão e aprecio um bom jogo - seja quais forem as equipas em confronto. . Quando as nossas equipas - sejam elas quais forem, jogam com equipas estrangeiras, também fico muito feliz se saem vencedores. Por isso, não nutro qualquer tipo de ódio ou de ressentimento para com o Presidente deste grande Clube.
No entanto, a visão que me surgia, com estranha clareza aos meus olhos, que me causava viva emoção,não lhe era favorável nem a ele nem ao seu clube. Pois percepcionava-mede que ia acontecer algo demuito grave!…Mais próximo damorte de quede uma simples lesão.Daí o ter aludido nos meus versos à desmedida ambição humana e à sua fugaz efemeridade - Mas também já tenho enviado muitas mensagens sob pseudónimo a outras personalidade que muito admiro
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Curiosamente, estive presente na noite da consagração da vitória de Luís Filipe Vieira. Fiz algumas fotografias - E aquela que mais gostei de registar e cuja imagem (no meu pensamento)ainda hoje revejo com a mesma nitidez de então é a de Fialho Gouveia. Ele estava muito feliz, muito feliz! - Ele era um fervoroso Benfiquista - ..Embora não sendo sócio nem simpatizante,estive lá no Pavilhão..E não tive dúvidas que, se os sócios do SLB votaram em LFV e o aplaudiram tão efusivamenteé porque gostavam dele e acreditavam no seu projecto. Ele não é nenhum iluminado mas sabe persuadir: sabe usar a linguagem que os Benfiquistas gostam de ouvi
Conheci pessoalmente, Fernando Martins, e, de modo algum, acredito que possa vir a ombrear com a sua figura! Nem por sombras!…. Ele dirigia o Clube e a equipa com mãos de mestre! Como um autêntico construtor de campeões, um artesão imbuído de grande génio e imaginação. Era generoso, tinha boas relações com os treinadores, jogadores, membros da direcção e a massa associativa. E até conseguia sensibilizar os árbitros se fosse necessário - Ouvi-lhe de viva voz episódios do arco da velha!... - sobretudo de alguns jogos com equipas estrangeiras. Claro que isso é já passado - Fez parte do jogo….
Falei algumas vezes com ele. E, numa ocasião, atéfui uma das poucas pessoas que estiveram presentes num almoço que ofereceu noHotel Altis, a Otto Glória. Isto aconteceu, julgo que no ano da sua morte. Foi um convívio muito agradável. O conhecido técnico brasileiro,que já andava com problemas de saúde,perguntou-me se não estaria interessado em pegar no seu diário.. Com muita penadisse-lhe que não tinha tempo para assumir essa responsabilidade. A minha vida profissional ocupava-me imenso. Mas hoje sinto uma certeza tristeza - Compreendo que não fosse a pessoa mais indicada ( pois a minha relação com o futebol sempre foi meramente episódica e de um simples observador) mas, que eu saiba, ninguém pegou na ideia e perdeu-se a oportunidade de se poderem conhecer muitas páginas da história do futebol - contadas por um dos seus mais notáveis protagonistas - dos mais brilhantes treinadores do seu tempo. A menos que as suas memórias tenham sido publicadas e eu não o saiba. Pois a vidência nada tem a ver com adivinhação.
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Não me considero nenhum adivinho. Nem faço disso vida. Mas reconheço que sou possuidor de algumas capacidades de vidência paranormais, que não costumam ser muito frequentes no comum das pessoas . De resto, na minha vida,conto com experiências de vida, muito arriscadas e marcantes, que, certamente, poucos se arriscariam a vivê-las. Creio que, em boa parte, talvez sejam fruto de alguns desses dramáticos momentos.
A propósito de tais percepções extra-sensoriais, poderia aqui citar vários casos que atestam as minhas capacidades – e até testemunhadas. Mas não tenho interesse. No entanto, não resisto aqui a recordar o que se passou no dia do funeral de minha mãe - estando eu a alguns milhares de milhas de distância ( na ilha de São Tomé)e sem que eu tivesse qualquer notícia sobre asua morte.
Mas, nessa ocasião, o meupressentimento foi um pouco diferente. Julgo que entrou mais no domínio da telepatia. Foi realmente estranhíssimo o queentão se passou comigo. Prestava serviço militar naquela ilha - depois de ter frequentado o curso de sargentos milicianos e o curso dos comandos em Angola.Mas de referir que não viera para esta ilha em comissão militar: pois já me encontrava em São Tomé, por força de um estágio numa roça.
Foi num Domingo. E, como tinha estado de serviço de véspera, após almoçoresolvi deitar-me e descansar um pouco Adormeci e uma hora e meia depois acordei a chorar.Pois vira o funeral de minha mãe a dirigir-se para o cemitério, com tal evidência, com tal pormenor, que era como se eu próprio estivesse incorporado no cortejo fúnebre atrás da urna.Via os olhos do meu pai e dos meus irmãos rasos de lágrimas. Ouvia-os todos a exprimir a sua inconformável dor De tal modo que eu próprio também chorava. Acordei a chorar. - Já um dia fiz este relato num jornal.
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Residia, nessa altura, em casa de uma família portuguesa. Pois o filho, o Francisco,andava comigo na tropa: era furrielmiliciano como eu. Compartilhávamos o mesmo quarto. - um bonito espaço, que se situava próximo do Mercado Municipal.Mas ele, na tarde desse domingo, estava fora de casa. Porém, ao regressar, vendo-me sentado sobre a cama e a chorar, perguntou-me:“O que é que tens, Jorge?!…” - Eu respondi-lhe: “a minha mãe morreu!…” E, mal pronunciei estas palavras, volto a cair em mim em lágrimas.... “Mas quem te disse?!…” - insiste ele. E eu digo-lhe: “Ninguém me disse nada!….. Mas eu sei que a minha mãe morreu porque eu vi o funeral dela!… Vi tudo como se estivesse acompanhá-la ao cemitério...”Ele mostra-se surpreendido com o que eu lhe acabo de revelar,pois já trazia consigo um telegrama onde me ia ser dada a notícia. No entanto, mesmo assim, ainda procurou contornar o seu conteúdo, tendo acrescentado, ao mesmo tempo que se aproximava de mim- já pronto para me dar um abraço e me confortar: “Olha, Jorge: de facto, a tua mãe está muito mal, está muito doente e eu até trago aqui um telegramapara te informar da gravidade da saúde dela!… Mas eu vi logo que eram apenas palavras amigasde conforto eretorqui: Obrigado, Francisco! Obrigado pelo teu cuidado mas esse telegrama só pode dizer que a minha morreu! - E era verdade. A minha mãe que fazia agora anos no dia de São Martinho, faleceu aos 50 anos, num Sábado e foi a enterrar, justamente naquele domingo, para mim tão triste - Mesmo antes de me ser dada a notícia.
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Este foi o primeiro caso que me despertou para os fenómenos da mediunidade. A partir daí passei a prestar mais atenção aos chamados flagrantes de iluminação e tenho-me apercebido de outros episódios relevantes. Entre os quais amorte da Irmã Lúcia. Desde há muito que lhe queria manifestar a minha admiração pelo seu estoicismo e santidade – por razões que lhe descreviE ,é claro, queria fazê-lo ainda enquanto fosse viva e antes da sua morte - E assim aconteceu: enviando-lhe uma singela carta, acompanhada de umas fotografias pessoais (sobre um naufrágio em que sobrevivi), sim, que lhe dirigi um mês antes de cair na enfermidade que a haveria de o conduzir à última morada. Guardo a cópia da missiva e o registo. Já publiquei ( um excerto) num jornal da imprensa regional mas hei-de também aqui fazê-lo.
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Dirigi mensagens a várias figuras públicas sobre as mesmas questões: a vidência – Houvemuitas cartas que escrevi mas que depoisnão as chegava a mandar – Pois aquilo que, inicialmente queria que fosse dito em meia dúzia de linhas, acabava, geralmente, em longuíssimos textos, pelo que desistia de as enviar. Sou capaz de um dia vir a transcrever aqui algumas dessas cartas.
Mas, já agora que falei do Benfica, posso citar a carta que mandei a Vale e Azevedo, uns dias antes da disputa com Manuel Vilarinho, em que - para seu bem e do Benfica - o aconselhava a mudar de vida; a retomar a sua profissão de Advogado. Também guardo ainda comigo a carta e a expressiva fotomontagem que lhe enviei - Deitado numa cama, enfermo, incorporando a figura do diabo e rodeado de pequenos diabos. Não digo que ele seja um deles – não é, obviamente – mas foi a forma como interpretei alegoricamente os meus sentimentos.
Do mesmo modo, também não quero aqui dizer que Luís Filipe Vieira seja má pessoa ou algum diabo no Benfica – que também não é - mas acho-o demasiado truculento ... Em todo o caso, por vezes, é destes que reza a história.. Luis de Raziell
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A MINHA HOMENAGEM A LUIS PIÇARRA - UM GRANDE AMIGO, COM QUEM TIVE O PRAZER DE FALAR VARIAS VEZES - TENHO LIVRO ASSINADO DAS SUAS MEMÓRIAS E FIZ-LHE, NESSA OCASIÃO, VÁRIAS FOTOGRAFIAS - FOI NA FEIRA DO LIVRO, NO PARQUE EDUARDO VII. QUANDO AS DIGITALIZAR, ESPERO AQUI EDITAR UMA DELAS